Cícero: IV Catilinária

Escultura do Museu Capitólio (Roma)
Marcos Túlio Cícero




Cícero exercia o mais alto cargo da República Romana no ano de 62 A. C. Tribuno notável, tinha sido eleito no ano anterior.

Único na eloqüência jurídica, destacou-se pelo seu caráter ascético, riqueza de imaginação, flexibilidade de espírito e habilidade dialética. Os seus escritos são modelos de crítica literária, modelos de eloqüência e de história.

Nessa época Roma vivia sob a ameaça de uma conjuração arquitetada por Catilina.

Catilina, que já tinha sido pretor e governador de uma província africana, tinha "cúmplices em todos os jovens depravados e pervertidos que haviam perdido sua fortuna e dilapidado suas heranças no jogo, no vício e na cúpula. Os devassos, os renegados, os adúlteros, os assassinos, os sacrílegos de toda a laia, os perjúrios notórios, os criminosos fulminados pelo raio da justiça e os que temiam ser encarcerados, esses malfeitores de toda a casta contavam bem reconquistar a fortuna e o poder na convulsão projetada" (Lissner).

Duas vezes, em 65 e 64, Catilina tentou se eleger cônsul infrutiferamente, e sua falta de equilíbrio psicológico e inveja fizeram com que arquitetasse o assassinato dos cônsules então no poder, o que deveria, por conseqüência, desencadear a revolta. A sua segunda tentativa fracassou graças à eloqüência de Cícero, e os discursos deste perante o senado ficaram conhecidos como as Catilinárias. No primeiro dos discursos, Cícero expõe perante o senado a conjuração  e incita Catilina a deixar Roma. Vendo Catilina que seu intento foi descoberto, resolve sair de Roma, para se incorporar às tropas de Mânlio, seu confederado e parcial, deixando na cidade Lêntulo, Cetego e outros, para que a tempo oportuno metessem tudo a ferro e fogo. Em conseqüência da retirada de Catilina, recitou Cícero no Senado a II Catilinária.

Interado Cícero das particularidades da conjuração de Catilina, mandou prender seus cúmplices principais que tinham ficado na cidade. E após manifestação no Senado, em um comício para o povo romano, proferiu a III Catilinária, oração em que faz referência à conjuração e seu intento, assim como exaltou a sua postura em ter evitado o pior.

A demora, que os conjurados tiveram na prisão, deu ânimo e esperanças a muitos que havia espalhados pela cidade, de entrarem no projeto de os livrar do cárcere. Sabendo disto, Cícero convocou o Senado (5 de dezembro de 63), para o fim de se deliberar o castigo dos réus. Dividiu-se o Senado em duas sentenças principais: uma de Silano, que lhes dava o castigo de morte; outra de César, que lhes prescrevia desterro e confiscação de bens. Insta o orador sobre que se determine uma das duas coisas; e posto que da sua parte mostra indiferença para executar qualquer coisa que se resolver, não deixa de significar, com moderação, que lhe agrada mais a primeira opinião, valendo-se Cícero da ironia mais mordente e mais aguda que era sua característica. A quarta e derradeira Catilinária é tida como obra-prima da sutileza: nesse discurso Cícero assume uma aparência de imparcialidade para deixar seus ouvintes concluírem que ele é a favor da pena de morte para os conjurados.

Embora não tenha havido deliberação do Senado, após o discurso, acompanhado por seus amigos e numerosos cidadãos romanos, Cícero foi até ao Monte Palatino para tirar de sua prisão o primeiro dos conjurados, Lêntulo Sura. Conduziu-o pelas ruas de Roma "para os carrascos que fizeram o desgraçado rebelde descer para um porão estreito, o Tuliano, a fim de ali o estrangularem com uma corda. Desde tempos remotíssimos, no reinado do rei Sérvio Túlio, servia aquela masmorra para essas execuções. No decorrer da noite desse mesmo dia 5 de dezembro de 62, sofreram os outros condenados a mesma sorte" (Lissner).

Segue o discurso de Cícero conhecido como a IV CATILNÁRIA:

"1. PARA mim voltados estou vendo, Padres Conscritos, os semblantes e olhos de todos; cuidadosos vos vejo não só do vosso perigo e da República, mas também, quando este por agora o não haja, do meu. Gostoso me é nos males, e agradável no sentimento o vosso afecto para comigo; mas pelos deuses imortais vos peço que o ponhais de parte, e que, esquecidos da minha conservação, só cuideis da vossa e de vossos filhos. Quanto a mim, se esta é a sorte do meu consulado, ter eu de tragar todas as amarguras, todas as mágoas, todos os tormentos, não só os sofrerei com constância, mas de boa vontade, contanto que a vossa autoridade e a vossa conservação, e do povo romano, sejam o fruto de todos eles. Eu sou, Padres Conscritos, aquele cônsul a quem nem o foro, centro de toda a equidade, nem o campo dedicado aos auspícios consulares, nem o Senado, último refúgio de todas as nações, nem a própria casa, comum asilo de todos, nem o leito concedido para o descanso, nem enfim este honroso assento e cadeira do magistrado esteve jamais livre de perigos de morte e traições. Muitas coisas calei, muitas sofri, muitas perdoei, muitas com particular mágoa minha sarei no vosso temor. Agora, se os deuses imortais quiserem que o remate do meu consulado seja livrar-vos a vós e o povo romano de um infeliz estrago, vossas mulheres e filhos, e as virgens vestais de uma cruelíssima vexação, os templos e santuários, e esta belíssima cidade, comum pátria nossa, de um horrível incêndio, e a toda a Itália de guerra e assolação, disposto estou a aceitar qualquer fortuna que se me oferecer. Pois se P. Lêntulo se deixou persuadir dos agoureiros que o seu nome havia ser fatal para ruína da República, por que me não alegrarei eu de ter sido o meu consulado em certo modo fatal para conservação dela?

2. Portanto, Padres Conscritos, atendei a vós, acudi à pátria, resguardai vossas pessoas, defendei vossas mulheres, filhos e cabedais, e a honra e conservação do povo romano, e deixai de vos compadecer e cuidar em mim. Porque, primeiramente, confio nos deuses imortais, protetores desta cidade, que me hão de dar a recompensa que mereço; e em segundo lugar, se houver alguma revolta, estou de ânimo pronto e aparelhado a morrer. Pois nem o homem de valor pode ter morte desonrosa, nem o consular apressada, nem o sábio infeliz. Contudo não sou eu de natural tão ferrenho que me não comova a aflição de um amabilíssimo e amantíssimo irmão que está presente, nem as lágrimas de todos os de que me vedes rodeado; a casa me leva o pensamento, minha mulher meio morta, uma filha aterrada de medo, e um filhinho, que a República me parece tem nos braços como penhor do meu consulado; nem aquele genro que está em minha presença esperando o êxito deste dia. Tudo isto me abala, mas de sorte que antes desejo fiquem todos salvos convosco, do que acabem eles e eu com toda a República. Portanto, Padres Conscritos, cuidai em acudir com o remédio à República, considerai atentamente as borrascas que lhe estão iminentes, se lhe não derdes providência. Não são os sujeitos, que agora se propõem à vossa decisão e severo juízo, Tib. Graco, que quis segunda vez ser tribuno do povo, nem C. Graco, que quis sublevar os parciais das leis Agrárias, nem L. Saturnino, que matou a C. Mémio, mas estão presos aqueles que, para abrasarem Roma, tirar-vos a todos a vida, admitirem a Catilina, se deixaram ficar nesta cidade. Temos as suas cartas, os sinetes, as notas, enfim a confissão de cada um deles; solicitam-se os saboianos, sublevam-se os ser­vos, é chamado Catilina; assentou-se na resolução de que mortos todos não ficasse nem sequer quem lamentasse o nome romano e a calamidade de tão grande Império.

3. Todas estas coisas depuseram os denunciantes, confessaram os réus, e vós mesmos julgastes já muitas vezes: primeira­mente porque me destes os agradecimentos com particulares expressões, asseverando que pelo meu valor e diligência fora descoberta esta conjuração de homens perdidos; além disto, porque obrigastes a P. Lêntulo a que renunciasse a pretoria; e também porque julgastes que este e os mais que sentenciastes, se deviam conduzir à prisão; e muito principalmente porque em meu nome decretastes as preces, honra que antes de mim a nenhum magistrado se concedeu; e ultimamente, no dia de ontem premiastes munificentíssimamente os enviados saboianos e a T. Vultúrcio; ações todas estas que bem mostram estarem os que nomeadamente prendestes sem dúvida alguma por vós já condenados. Mas eu, Padres Conscritos, venho com ânimo de vos fazer uma relação como de novo, para que sentencieis o feito e determineis o gênero de suplício. Direi primeiramente o que devo em razão de cônsul. Muito tempo há que eu via andar na República uma grande insolência, introduzirem-se novidades e fomentarem-se grandes males; mas nunca me persuadi que de entre os cidadãos brotasse esta tão enorme e perniciosa conjuração. Agora, seja como quer que for, para onde quer que propendam os vossos pareceres e sentenças, isso o deveis assentar antes de noite. Bem vedes a atrocidade do delito que nos foi denunciado; se entendeis serem poucos os cúmplices, enganai-vos de meio a meio. Este mal tem lavrado mais do que se cuida; não só se difundiu pela Itália, mas atravessou os Alpes, e inserindo-se solapadamente, se apoderou de muitas províncias; já se não pode em modo algum extinguir com detenças ou demoras; qualquer que seja o remédio, deveis aplicá-lo prontamente.

4. Vejo porém que ainda há duas opiniões: uma de D. Silano, o qual julga devem ser punidos de morte os que semelhante assolação procuraram; outra de C. César, que exclui a pena de morte e aprova todo o rigor dos mais castigos. Ambas de suma severidade, qual convém à graduação dos juizes e à graveza dos fatos. O primeiro remata em que se não deve conceder um momento de vida, nem deixar gozar deste ar que respiramos aqueles que a todos nós e ao povo romano quiseram tirar a vida, acabar o Império e extinguir o nome romano, e se lembra que semelhante castigo fora muitas vezes executado nesta cidade em cidadãos protervos. O segundo diz que a morte não fora ordenada pelos deuses imortais para castigo, mas que ou é indispensável necessidade da natureza, ou descanso dos trabalhos e misérias; pelo que, os sábios nunca a padeceram contra vontade, e os valerosos muitas vezes com ela; porém que a prisão, e esta perpétua, fora inventada para castigo de delitos atrozes. Por onde, assenta em que se distribuam pelos municípios. Esta opinião parece envolver injustiça, se quiserdes ordenar o que propõe, e dificuldade, se o quiserdes rogar; decida-se, não obstante, se assim vos agrada. Eu a tomarei à minha conta, e confio que acharei quem entenda não desdizer do seu caráter executar o que determinardes para utilidade pública. Grave pena impõe aos municípios, se alguém os soltar das prisões; cerca-os de terríveis guardas, dignas da maldade de homens tão facinorosos; estabelece que ninguém por autoridade do Senado ou do povo possa mi­tigar a pena dos condenados; tira também a esperança, que é a única que costuma consolar o homem nas desgraças; além disto, lhes manda confiscar os bens; só a vida deixa aos delinquentes, a qual, se lha tirassem, com uma dor os livraria de muitas da alma e corpo e de todas as penas de seus delitos. E na verdade os antigos, para que os ímprobos nesta vida tivessem algum temor, pretenderam que nos infernos houvessem castigos aparelhados para os ímpios, certamente porque entendiam que a morte por si só não era para se temer.

5. Agora, Padres Conscritos, atendo ao que me importa. Se seguirdes a sentença de C. César, como este tem seguido na República este caminho que se chama popular, talvez tenha eu menos que temer os tumultos do povo, sendo ele o autor e sustentador deste projeto; se abraçardes aqueloutra, não sei se terei mais que fazer; mas não obstante, prevaleça o bem da República às razões dos meus perigos. Temos pois a sentença de C. César como penhor do seu perpétuo zelo para com a República, segundo a sua graduação e a nobreza de seus maiores o pedia. Conhecida está a diferença que há entre a inércia dos faladores e um ânimo verdadeiramente popular e diligente pelo bem do povo. Vejo que entre estes que querem ser tidos por populares não falta quem se tenha ausentado, por não dar sentença sobre a vida de cidadãos romanos, havendo anteontem entregado à prisão cidadãos romanos, decretado preces por mim, e remunerado com grandes prêmios os denun­ciantes. Visto está logo o que julgou de todo o feito e causa, quem deu ao réu o cárcere, ao inquiridor agradecimento, e ao delator prêmio. Porém C. César entende que a lei Semprónia fora posta acerca de cidadãos romanos, e que de nenhum modo pode ser cidadão quem é inimigo da República; em uma palavra, que o mesmo autor da lei Semprónia fora castigado por mandado do povo; e se não pode chamar popu­lar o mesmo estragado e pródigo Lêntulo, que tão tirana e cruelmente projetou a ruína do povo romano e assolação desta cidade. Portanto não duvida aquele mansíssimo e clementíssimo varão condenar a Lêntulo a prisões e calabouço perpetuo, juntando a isto o seqüestro dos bens, para que o acompanhem todos os tormentos da alma e corpo até à penúria e mendiguez.

6. Por cuja causa, ou assenteis neste parecer e me deis para o anunciar ao povo um sócio que lhe seja aceito e grato; ou queirais seguir antes a sentença de Silano, fácil me será a mim e a vós livrar-nos da censura de cruéis; e ainda conseguirei se diga que esta última sentença fora a mais branda. Ainda que, Padres Conscritos, que crueldade pode haver em castigar tão execrando delito? digo isto pela impressão que em mim próprio me causa. Assim eu me possa gozar convosco da República salva, como é certo que o que me move a ser severo nesta causa não é ser de ânimo cruel, (pois, quem mais manso do que eu?) mas uma singular humanidade e compaixão. Parece-me estar vendo a esta cidade, adorno do universo e asilo de todas as nações, em um momento consumida em um incêndio; representa-se-me na imaginação a pátria sepultada e os infelizes montões de cadáveres desenterrados; trago diante dos olhos o semblante de Cetego, e o furor com que se afadiga na vossa mortandade. Pois quando me proponho a Lêntulo entronizado, como ele confessou esperava ser, fundado nos oráculos, a este Gabínio coberto de púrpura, e que é chegado Catilina com o exército, me enchem de horror os prantos das mães de fa­mílias, a fugida das donzelas, a opressão das virgens vestais; e porque me parece tudo isto lastimoso e digno de compaixão, por isso me porto severo e acre contra os que o quiseram exe­cutar. Dizei-me, se um pai de famílias, vendo que um servo lhe assassina os filhos, mata a mulher e põe fogo à casa, castigar o servo rigorosíssimamcnte, tê-lo-eis por piedoso e compassivo, ou por desumaníssimo? Quanto a mim, certamente teria por insensível e de ferro quem não mitigasse a sua dor e mágoa com o castigo e tormento do delinqüente. Pois também nós, para com estes homens que nos quiseram matar cruelmente e a nossas mulheres e filhos, que quiseram assolar nossas casas e todo este domicílio da República, que procuraram estabelecer os povos saboianos sobre os vestígios desta corte e cinzas do abrasado Império, embravecendo-nos contra eles, seremos tidos por compassivos; se nos quisermos portar remissos, granjearemos a fama de cruelíssimos, por sermos causa da ruína da pátria e cidadãos. Salvo se a algum pareceu anteontem mui cruel C. César, varão tão valoroso como amante da República, quando disse na cara a Lêntulo, marido de sua irmã, mulher de raro merecimento, que merecia ser punido de morte, e lhe lem­brou que por ordem do cônsul se tinha tirado a vida a seu avô, e que um filho deste, impúbere, que mandara por enviado ao Senado, fora morto no cárcere! Que comparação tem isto com o presente crime? que intento houve ali de arruinar a República? A questão era então sobre prodigalidades; esta a matéria, em que as partes contendiam. Naquele tempo o avô deste Lêntulo, varão esclarecido, perseguiu a Graco com as armas na mão, e recebeu uma ferida grave, por que não padecesse quebra a autoridade da República. Este, para destruir desde os fundamentos a República, chamou os franceses, sublevou os servos, fez vir a Catilina, encarregou a Cetego despedaçar-nos, a Gabínio o destroço dos mais cidadãos, a Cássio abrasar a cidade, e a Catilina assolar e saquear toda a Itália. Em delito tão atroz e nefando, julgo que não deveis ter receio de ordenar coisa alguma com rigor, mas antes temer que, se suavizardes o castigo, mais vos terão por cruéis com a pátria, do que agora mui severos para com inimigos cruelíssimos.

7. Mas não posso, Padres Conscritos, disfarçar o que ouço; espalham-se vozes, que chegam a meus ouvidos, dos que duvidam que eu tenha forças bastantes para executar o que vós ordenardes neste dia. Tudo está aparelhado e pronto, Padres Conseritos, com sumo cuidado e diligência minha, e ainda maior vontade do povo romano, para manter este supremo Império e conservar as posses de todos; prestes estão homens de todas as classes e idades; está cheio o foro, cheios os templos à roda do foro, cheias as ruas deste lugar e templo. Depois que há Roma, se não encontra outro negócio em que, como neste, todos entendessem a mesma e única coisa, exceto aqueles que, vendo haviam perecer, quiseram antes acabar com todos do que sós. Semelhantes homens de boa mente os excetuo e separo, nem julgo se devem ter na conta de cidadãos, mas de inimigos cruelíssimos. Os demais porém, deuses imortais! com que concurso, com que afeto, com que fortaleza se não unem para conservação da autoridade e bem público! Para que é mencionar aqui os cavaleiros romanos, que vos cedem na superio­ridade da ordem e do voto e só contendem convosco no amor da República? Os quais, depois de muitos anos de diferenças, reduzidos à sociedade e concórdia com esta ordem, os une convosco o presente dia e causa; cuja união, ratificada ao meu consulado, se perpetuamente a conservarmos na Republica, eu vos seguro que nenhum mal civil e doméstico virá daqui em diante a parte alguma da República. Com igual cuidado de a defender vejo concorrerem os constantíssimos tribunos do Erário e todos os secretários, os quais, tendo-se acaso juntado hoje no Erário em grande número, vejo que de esperar a sorte se voltaram a acudir ao bem público. Presente está toda a multidão, ainda da ínfima condição; por que quem há que não ame e lhe não sejam agradáveis e aprazíveis estes templos, a vista da corte, a posse da liberdade, enfim esta mesma claridade e este comum terreno da pátria?

8. É preciso, Padres Conscritos, indagar os cuidados dos homens libertos, que, tendo por sua fortuna conseguido direito nesta cidade, julgam ser ela sua verdadeira pátria; à qual alguns aqui nascidos, e nascidos em lugar eminente, não tiveram por sua pátria, mas por cidade inimiga. E que direi dos cidadãos desta Ordem, a quem os interesses particulares, a comum República, enfim aquela liberdade que é suavíssima animou a defender a conservação da pátria ? Não há servo dos que estão em tolerável cativeiro, a quem não horrorize o atrevimento destes cidadãos, e não deseje que isto se conserve; que não concorra com todo seu esforço e poder para o comum desejo da conservação. Pelo que, se acaso a algum de vós causa abalo o que se ouviu dizer, que um dos fautores de Lêntulo andou de loja em loja e se persuade que a poder de dinheiro poderá sublevar os ânimos dos pobres e imperitos, verdade é que isto se principiou e procurou, mas ninguém houve de tão mesquinha fortuna ou estragada vontade que não quisesse antes ter salvo o assento e lugar do seu quotidiano trabalho e lucro, a sua casa e leito, em uma palavra, este seu sossegado modo de vida, principalmente a maior parte dos que assistem nas lojas; antes, por melhor dizer, toda esta casta de gente ama sumamente o sossego, porque toda a sua indústria, todo o trabalho, toda a ganância se sustenta com a concorrência de cidadãos e mantém com a tranqüilidade; e se os seus ganhos, fechadas as lojas, se costumam diminuir, queimadas elas, que seria? Sendo isto assim, Padres Conscritos, e não vos faltando o socorro do povo romano, cuidai em que não pareça que sois vós os que lhes faltais a ele. Tendes um cônsul livre de multiplicados perigos e laços, que das garras da morte escapou, não para proveito da sua vida, mas da vossa conservação; todas as ordens, com o conselho, vontade, diligência, valor e voz, conspiram em manter a República. A comum pátria, rodeada das fachas e armas desta ímpia conjuração, para vós tem humildemente as mãos levantadas; a vós se recomenda a si mesma, a vida de todos os cidadãos, o Castelo, e Capitólio, os altares dos penates, aquele fogo contínuo e perpétuo de Vesta, e os muros e edifícios de Roma. Além disto, tendes também hoje de dar sentença sobre a vossa vida e de vossas mulheres e filhos, sobre os bens de todos e sobre as vossas moradas e lares. Tendes capitão, que se lembra de vós e esquece de si, cuja comodidade não há sempre. Tendes todos os homens e todo o povo conformes no mesmíssimo parecer; sendo hoje a primeira vez que isto sucede em causa civil. Ponderai como uma noite daria cabo de um Império fundado com tanto trabalho, de uma liberdade estabelecida com tanto valor, de tantas riquezas aumentadas e acumuladas pela benignidade dos deuses. Hoje se há de dar providência para que daqui em diante não só não haja cidadãos que tal possam efetuar, mas nem trazê-lo ao pensamento. Isto vos digo, não para vos exortar a vós, que sempre no zelo me excedestes, mas para que a minha voz, que na República deve ser a primeira, pareça satisfazer à obrigação de cônsul.

 9. Agora, antes que torne a falar da sentença, direi um pouco do que me pertence. Tamanho é o esquadrão de conjurados, (que vejo ser grandíssimo) quanta a multidão de inimigos, que volto contra mim; mas eu a tenho por infame, fraca, desprezível e vil. E se em algum tempo este exército, animado por algum insolente e perverso, puder mais que a vossa autoridade e da República, nem por isso, Padres Conscritos, me arrependerei nunca das minhas ações e conselhos. Porque a morte, com que eles talvez me ameaçam, a todos está aparelhada; tão grandes encômios, com que em vida me tendes honrado pelos vossos decretos, ninguém jamais os conseguiu, porque se a outros sempre agradecestes o terem administrado bem a República, só a mim o tê-la conservado. Seja embora ilustre aquele Gipião, por cujo conselho e valor foi Aníbal obrigado a voltar à África, e retirar-se de Itália; tributem-se insignes louvores ao outro Africano, que consumiu duas cidades inimicíssimas deste Império, Cartago e Numância; repute-se varão egrégio aquele L. Paulo, cuja carroça enobreceu Perseu, que fora rei poderosíssimo e nobilíssimo; goze de glória eterna Mário, que duas vezes livrou a Itália de invasão e temor de escravidão; seja preferido a todos Pompeu, cujas ações e façanhas ilustraram tantos países quantos o sol alumia; ainda haverá entre os encômios destes algum lugar para a minha glória; salvo se não é mais do que descobrir províncias, por onde nos possamos estender, procurar que os que estão ausentes tenham para onde voltar vencedores. Em uma coisa porém está de melhor partido a vitória estranha que a doméstica: que os inimigos estranhos ou se sujeitam vencidos, ou reconciliados se dão por obrigados do benefício; mas os que sendo do número dos cidadãos, por alguma depravada demência entraram a ser inimigos da pátria, se os desviares de que arruínem a República, nem os podereis reprimir com força, nem aplacar com benefícios. Por onde, estou capacitado que tenho de ter guerra contínua com cidadãos perdidos, a qual espero desviar de mim e dos meus, com o vosso favor, e de todos os bons, e com a lembrança de tantos perigos, que não só durará sempre neste povo que ficou salvo, mas nas vozes e conceito de todas as nações; nem haverá jamais por certo força alguma que possa infringir e arruinar a vossa união, e dos cavaleiros romanos, e tão unânime concórdia de todos os bons.

10. Sendo isto assim, Padres Conscritos, pelo Império, pelo exército, pela província que enjeitei, pelo triunfo e mais insígnias de aplauso que recusei em atenção da conservação desta cidade e da vossa vida; pelas homenagens e direito de hospitalidade que eu mantenho e possuo com menos dispêndio da cidade do que trabalho meu; por tudo isto, pelo meu particular zelo para convosco, e por esta diligência que vedes em conservar a República, vos não peço outra coisa mais que a lembrança deste tempo e de todo o meu consulado; enquanto ela estiver impressa em vossos ânimos, me terei por defendido de um muro fortíssimo. E se as forças dos perversos frustrarem e vencerem a minha esperança, vos recomendo um meu pequeno filho, o qual terá em vós bastante proteção para conservar a vida e conseguir os cargos, se vos lembrardes de ser ele filho daquele que tudo isto conservou por si só com o seu perigo. Portanto, Padres Conscritos, sentenciai, como tendes assentado, com fortaleza e constância sobre a vossa conservação, e do povo romano, de vossas mulheres e filhos, dos altares e fogos, dos santuários e templos, das vossas moradas e de toda a cidade, do Império, da liberdade, da salvação da Itália e de toda a República. Tendes cônsul que não duvidará obedecer aos vossos decretos, nem, enquanto lhe durar a vida, defender e executar por si próprio o que determinardes".

Vendo muitos participantes da conjura apinhados no fórum sem saberem da morte de seus líderes, à espera da noite, como se os homens ainda estivessem vivos e pudessem ser arrancados da prisão, Cícero bradou-lhes: "Já viveram". Assim anunciavam em Roma a morte aqueles que evitam o emprego da palavra agourenta. Catilina pereceu em combate nos arredores da cidade.

O Senado não aceito o "julgamento sumário" de Cícero, sem aprovação do Senado. Assim, mesmo dizendo-se o salvador da República e aclamado pelo povo, Cícero foi teve que fugir diante de perseguições, após o que foi decretado o seu exílio "e expedido um édito mandando se lhe recusasse fogo e água e se lhe negasse pousada dentro de quinhentas milhas de distância da Itália" (Plutarco). Mas o respeito tido por Cícero por parte dos romanos fez com que não respeitassem tal decreto e após mudanças políticas em Roma, Cícero voltou no décimo sexto mês do exílio.

Quando da morte de César, Cícero ficou contra Marco Antônio e a favor de Octávio, sobrinho de César. Morreu assassinado por ordem de Marco Antônio. As mãos e a cabeça de Cícero foram expostas no Fórum.

 

Fontes:
- Enciclopédia Koogan-Houaiss Digital,  1999.
- "Os Césares: apogeu e loucura", Ivar Lissner, Itatiaia, 1985, p. 49-62.
- "Vidas", Plutarco, Cultrix.
- "Nova Enciclopédia de Biografias", Planalto Editorial, 1974.
- "Cícero: Orações", Clássicos Jackson, Vol. II. 1956.



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