MORTE POR TORMENTO

Michael Kunze em "A Caminho da Fogueira" (Ed. Campos, 1989), conta que no ano de 1600, numa pequena aldeia da Baixa Baviera, na Alemanha, "uma família de nômades - marido, mulher, filhos crescidos, um menino de dez anos - cai nas graças das autoridades constituídas. Procuravam-se os acusados adequados para um grande e espetacular processo - um processo necessário para restabelecer a lei e a ordem numa época caótica, para combater os salteadores de estradas, os assassinos e a heresia por todo o ducado".

"Protestaram sua inocência, mas o poder da tortura os forçou sem demora a dizer coisas prejudiciais. A princípio com hesitação, depois  mais facilmente, confessaram centenas de assaltos, assassinatos e incêndios propositais. Era exatamente o que as autoridades procuravam - criminosos que tinham pacto com o Diabo".

O julgamento ocorreu durante os dias 26, 27, 28 e 29 de julho de 1600.

A sentença: "Considerando que a Sagrada Escritura, tal como as leis comuns do Império, especialmente o salutar Código Penal instituído por Sua Mui Digna e Mui Excelente Majestade, o Imperador Carlos V, no ano da graça de 1532, então promulgado e adotado em todas as partes do Império Romano, realmente dizem e ordenam que o odioso, abominável e terrível pecado da bruxaria e feitiçaria, a fortiori, porém, a negação e renúncia à Majestade de Deus e de toda a sua Hoste Celestial, seja punido com as mais duras e temíveis penalidades que se possam impor ao homem, como seja, a quima, e considerando que essas seis pessoas aqui trazidas, cada qual servindo como exemplo público, mostram-se, de maneira detestável, ímpia e anormal, tão perdidas para qualquer senso de honra de Deus, a qualquer afeição natural, e para salvação de suas próprias almas, a ponto de se deixarem levar incontáveis vezes a esses pecados e vícios abomináveis de uma natureza infame, sem precedentes e vil, que foram aqui expostos in extenso, escarnecendo dos Dez Mandamentos e, na verdade, do sagrado nome do próprio Deus, juntamente com todas as salutares leis acima mencionadas, na medida em que provocaram a morte e deformação em um grande números de pessoas, tanto jovens como velhas, pelo uso de amaldiçoado unguentos diabólicos, provocaram vendavais e  chuvas de granizo, envenenaram gado e pastagens, invadiram adegas e outras dependências com o objetivo de realizar as suas orgias a normais e outras assembléias ímpias e diabólicas, tal como roubar o mais Santo Sacramento das igrejas, muitas vezes profanando-o da forma mais abominável, insolente e desumana, tendo além do mais deliberadamente cometido mitos atos notáveis de assassinatos e incêndios provocados, assaltando pessoas à noite de maneira violenta e assassina, causando-lhes dano pelo fogo, arrancando-lhes os membros de aneira anticristã, bem como cometendo roubos e furtos nas estradas e outros lugares, constituindo todo isso atos, vícios e atrocidades de natureza inédita, anticristã brutal e detestável, sendo ilegal, sim, amaldiçoados, e passíveis de punição, sendo tais crimes raros, juntamente em qualquer companhia de pessoas, e tendo essas mesmas pessoas admitido e confessado ter perpetrado os mesmos, tanto de sua livre e espontânea vontade, como sob coação do interrogatório sob tortura, como disseram e registrado foi por escrito, o mesmo tendo sido comprovado como verdade pela investigação judicial, e   considerando que Sua Graça, preocupado com a sua soberana função, e sua responsabilidade no cumprimento, como Príncipe e membro constitucional de nosso Sacro Império, de todos os Editos, Constituições e Decretos que dele exigem a implantação de toda forma de justiça, expulsando o mal para consolo dos justos, e como dissuassão para os maus, não pretende, tenciona ou deseja proceder de outra maneira que não seja de acordo com e em virtude das mencionadas leis e decretos constitucionais imperiais portanto, depois da devida consideração dos terríveis atos e atrocidades aqui expostos, e confirmados pela confissão irrevogável dessas mesmas seis pessoas aqui trazidas, juntamente com a prova de corroboração de que elas na verdade perpetraram tais crimes vis e abomináveis desse tipo, devido ao que, como testemunhado na Sagrada Escritura, cidades, reinos e nações igualmente podem vir a sofrer múltiplas tribulações, todas as maneiras de castigo e desgraça até hoje a nós imposta pelo Deus Todo-Poderoso, assim compete a mim, Christopher Neuchinger de Oberneuching, Juiz Executivo de Sua Graça, declarar como meu julgamento irrovogável que, de acordo com as leis e decretos imperiais acima mencionados, as vidas dos seis condenados são confiscadas, tendo eles incorrido em pena de morte por tormento, ou seja,  que todos os seis sejam colocados publicamente em duas carroças, levados em procissão antes de suas mortes ao lugar da execução, o corpo de cada um seja rasgado seis vezes com tenazes em brasa, a mãe tenha os seios cortados, os cinco condenados homens tenham os braços partidos na roda, e Paulus Gamperl seja depois empalado num poste, todas as seis pessoas sendo então submetidas à morte pelo fogo".

A execução: "De acordo com a notícia do cronista, os seios cortados foram esfregados na boca de Anna, e na boca de seus dois filhos"

O carrasco foi instruído para agir com moderação para que os apenados passassem por todos os tormentos. "O ato de rasgar-lhes a carne com tenazes em brasa já os tinha enfraquecido - um tratamento completo pela roda teria dado um fim prematuro aos seus sofrimentos".

Quando o pai estava na roda o menor gritou: "Veja, estão amassando os braços do meu pai!!!"

Paulus foi empalado. A empalação consistia no seguinte: "Isso se faz inserindo um pau de ponta em seus posteriores, e que é então forçado pelo seu corpo, saindo na cabeça, por vezes na garganta. Esse pau é então invertido e enterrado no chão, para que a desgraça da vítima, como bem podemos imaginar, viva em agonia por alguns dias, antes de expirar..."

"A multidão agitada tinha um espírito de carnaval [...] Dentro em pouco, nada mais se podia ver dos malfeitores. As chamas saltavam altas no ar, o calor na proximidade imediata das fogueiras era insuportável [...] Nada mais restou de nossos vagabundos. Não houve necessidade de enterrá-los. O empreiteiro montou guarda e limpou o local das fogueiras, até que as cinzas ficaram brancas..."



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