Depois do carnaval
Vivo na própria pele a decepção. Sete dias fora do Brasil, onde as notícias sobre o nosso país se limitavam a curtas notas jornalísticas dando da violência do carnaval nas nossas duas maiores metrópoles, chegaram a me criar a esperança de que, no retorno, o ambiente estaria mais ameno. Doce ilusão. Ledo engano. O carnaval no Congresso ainda não acabou e os parlamentares, por certo estafados de tanta labuta cívica, só voltarão ao trabalho depois que tiverem curtido a ressaca de tamanho empenho em prol do bem-estar nacional, que sobre eles pesa a responsabilidade de manter acesa a chama que embala a febre reformista do governo tucano. Assim, recuperados e retemperados, deputados e senadores saberão como golpear melhor a previdência, retirando do contribuinte benefícios conseguidos a duras penas, mas que, na ótica oficial, são empecilho inadmissível para o bom gerenciamento do dinheiro do trabalhador, o qual, se quiser aposentar, tem de encontrar algum curandeiro que lhe proporcione um chá de longevidade. Aqui na taba, minha expectativa também não foi satisfeita. Ainda não encontrei as cornucópias do terceiro ciclo a jorraram toneladas de grãos com que sairemos do subdesenvolvimento e entraremos, orgulhosos e vaidosos, nos jardins do Éden. Mesmo estando a enxada a ser zurzida pelas calejadas mãos do agricultor Lima Duarte, ainda não possível extrair do abençoado solo os frutos salvadores. Talvez só agora as sementes estejam a vicejar sob os ecos dos trinados maviosos do generoso e munificente José Carreras, cantante de nenhuma ambição financeira. Mas não vamos ser tão pessimistas e acreditar que só na Terra de Santa Cruz, à qual o Papa dirigiu comovedora mensagem em impecável vernáculo, ocorrem calamidades cívicas. O nosso grande irmão do norte do equador, nação que acudiu o Vietnam e libertou Granada, tudo em nome dos esteios da civilização ocidental, também nos forneceu, durante a folia, motivo para a pândega. Não é que um cretino, pretenso candidato à presidência pelo Partido Republicano, conseguiu vencer as eleições primárias em um Estado, apresentando como proposta prioritária a extinção da Organização das Nações Unidas e a construção de um muro separando os Estados Unidos do México? Convenhamos em que é preciso ter comido muito hamburger e digerido milhares de cachorros-quentes para chegar a tal nível de degeneração cerebral. Fiquemos mesmo com os nosso beneméritos tupiniquins, cuja insensatez só de longe encena laivos de megalomania.
|